O mundo de dona Juventude
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Pois a dona Juventude era daquelas pessoas que já nascera velha, pelo menos eu sempre a conhecera velha. Até o seu jeito de falar tinha o bolor esverdeado que se refletia sobremaneira em suas previsões apocalípticas. Seu pessimismo latente transbordava e marcava sua expressão facial com um colorido apagado, sem deixar de sinalizar, entretanto, que estava de mal com a vida.
- Bom dia dona Juventude; belo dia hoje...
- É, mas você está vendo aquelas nuvens? É chuva e, provavelmente, venha acompanhada de temporal.
- Paciência, fazer o quê...
- Meu receio é o arroio que já está com bastante água e isto significa risco de enchente...
- Mudando de assunto, a senhora tem notícias do fulano de tal?
- Sim, está hospitalizado e conforme se comenta ele não escapa dessa...
- Mas afinal, o que ele tem?
- Eu não quero dizer nada, mas acho que é doença ruim.
- Será?
- Claro que é; eu sei bem como são esses casos... desculpa, mas tenho que ir, deixei a porta dos fundos berta e com os roubos que andam acontecendo por aí corro o risco de limparem a minha casa.
- Está bem, tenha um ótimo dia!
Ela saiu resmungando: “um ótimo dia, rumh, do jeito que está o mundo...”
A velha deslocava-se a passos lentos e seu semblante, embora sugerisse apatia, refletia impressões de mal-estar como se algum sinal de mau-agouro a alertasse que o dia seria ruim. A natureza sempre fora para ela um grande mistério, onde o brilho do sol ou a escuridão da noite, pela sua cor e temperatura eram vistos como possíveis e perigosas armadilhas que teriam sido colocadas no seu caminho para não deixá-la em paz.
Sua relação com o mundo exterior dava-se através de uma estreita fresta de uma janela instalada na parede da frente de sua morada, ou pelas informações que recebia das pessoas que encontrava no caminho entre sua casa e o armazém de seus pensamentos apocalípticos. Daquela fresta cuidadosamente aberta ela construiu um mundo especial onde o espaço e o tempo não tinha muito significado. As imagens captadas pelo visor vertical associada às informações dos contatos verbais permitiu-lhe tecer uma concepção própria de vida.
Nota: qualquer semelhaça com personagens da vida real é mera coincidência.

