Cultura

A bruxa

Por Ronie Von Rosa Martins
30/04/2012 21:53
Atualizado em 18/09/2017 20:36
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E ela levantaria os olhos para o céu. E a reza estaria neles – claros grandes, brilhantes... esperançosos – antes das palavras-resmungos-lamúrias que diria. Mãos vazias para o alto.

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E ela levantaria os olhos para o céu. E a reza estaria neles – claros grandes, brilhantes... esperançosos – antes das palavras-resmungos-lamúrias que diria. Mãos vazias para o alto.

Dona Nandinha era uma bruxa. Pelo menos para mim. Guri que fui. E que na sua presença aprendi o mundo que via, lia e dizia.

Mas era uma daquelas bruxas boa de abraçar. Na flacidez dos anos e da pele fria. Estranha para mim. Guri de sete anos e com o calor todo do corpo nas pernas que corriam ruas inteiras. Hoje memória e história.

Vizinha da minha mãe. Mais velha que todos. Antes do médico era ela que corria para as casas-chá-efusões-xarope-rezas-beijos carinhosos nas crianças-histórias fantásticas anteriores a qualquer memória.

Pequena. Gordinha. Cabelo crespo. Olhos redondos. Voz grave e forte. Firmeza nas mãos e nas pequenas pernas que se recusavam a temer ou respeitar a imposição do tempo.

Uns diziam curandeira, parteira outros. Rezadeira, mais alguns. Mas de profissão costurava. Com linha construía. Edificava, reformulava a vida de todos que a circundavam.

Remendava e reconstituía os pedaços de todos nós. Cortava o que não prestava, cerzia nossas feridas, remendava com cores alegres nossas dores.

Pela manhã. Cedo. Fazia o mate. Quente como o fogo e ligava o pequeno rádio. Baixinho cochichava no ouvido da nossa bruxinha as novidades do mundo e seus perigos. E ela levantava os braços e olhos para o céu e rezava. Segurava com suas rezas o mundo todo e todo o seu peso. E era feliz.

E era forte a Dona Nandinha. A casa era repleta de bis quis, vasos de flores e incensos. Retratos pelas paredes em molduras antigas. Guardanapo bordado na mesa da cozinha e no tampo do fogão. A leitura

Tinha um gato que não era dela. Dizia. Mas comia e dormia na casa. Godot era o nome. Ela lia. E fazia ler. Às vezes nos pegava na rua e nos tomava a leitura: Moby Dick, As viagens de Gulliver, Sítio do Pica-Pau, contos de fadas, as Mil e uma noites...

Na época era um suplício, mas lembro que depois – na rua – nos gabávamos para os amigos: “Tive que ler dez páginas do livro tal... e o outro retrucava cheio de segurança e superioridade: Pois faltam dez páginas para eu ler o livro todo!”

Era uma bruxa sim. E vivíamos envoltos em magia.

Um dia Dona Nandinha morreu. Venderam a casa, os livros e o gato fugiu. Fugiu para minha casa. Envelheceu lá. Eu com ele. Hoje é lembrança. Memória mágica.

Ligo o rádio. Os olhos para o céu. Profundo céu de possibilidades. Estou constrangido... mas levanto as mãos. Busco um pensamento que se avizinhe de Deus. Faço uma reza resgatada dos confins da minha infância.

Sorrio. A vida é boa. Uma nuvem sorri para mim. Tem a cara da Dona Nandinha.